quarta-feira, 15 de setembro de 2010

Dzi

Causa e efeito, par típico
que expressa a causalidade
na experiência dual,
existem apenas para o corpo
sucessivo e divisível.

Por isso Heráclito diz que:
Bem e Mal são um e o mesmo.

Asiah

O Todo-Atraente (Krsna) é a fonte da Pessoa.

Assim como Asiah é o cosmo, isto é,
o corpo manifesto, dos cabalistas,
para o Śrīmad Bhāgavatam, é o mesmo.

Assim o peregrino fatigado encontra
na raíz de seu caráter nômade
as recorrências que explicam a sua pessoa.

Os verdadeiros caminhos têm força própria.

segunda-feira, 15 de março de 2010

Outro

Outra-se, e o verbo nada a mais
diria que o físico fluir contínuo,
e não haveria arte nisso.

Arte é passar além do constatar.
É constelar novas dores
que não precisam sarar.

Outrar-se não quer dizer
tornar-se outro, apenas,
isso é físico, e como tal,
involuntário.

Outra coisa é criar.
Outra coisa é viver fora de mim,
o que de mim pude alhear...
Sair de si, eis a condição.

É preciso saber não se repetir,
ter noção do mesmo
que idiossincraticamente
perduraria como espelho
de nossas afirmações superficiais
e vãs.

Tome pelo contrário aquilo
que o homem afirma e o terá desnudo.
Por trás da fala do homem expansivo
há sempre o mentiroso.

Quem fala?

Somente ao unificar as contrariedades,
poder-se-ia variar as unidades... semânticas,
porque fisicamente
o tudo que é todo é, em muita coisa, igual.

Então tudo é igual e nada vale a pena?

Não seria niilista, esse morcego imbecil...
se o afirmasse? Contradição nos termos!
Um niilista nada afirma, não sabe criar.

Um para mim vale por mil se é o melhor.

Se é intempestivo, acrescentaria.

Se é capaz de projetar valores eternos.
Onde há valores morais eternos? Imbecis!

Como tomam o instinto de preservação,
e a morte como verdade física,
negam o eterno como se fosse algo moral,
histórico, sombra...

Falo para o criador e não para o réptil...
A Vida sabe a si e ao Belo,
não a ti homem sábio ou mulher bela:
conjunção, disjunção,
vida que une, abalo sísmico que separa.

F.'.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Arrebol

"Lembra-te...
nos dias de tua mocidade,
antes que se te acheguem
os dias do mal,
em que dirás:
'neles não tenho prazer'...
& antes que
o fio de prata se rompa
& a taça de ouro se parta..."

Abra a porta e vá entrando,
Eu me proporcionei.
Agora a ti me dirijo:
O seu sorriso me convenceu.

A lua era vista por côncavas
mínguas, salientes a arestas.


Crepitastes madrugadora
& vermelhidão da aurora,
espalhou-se,
a mesma vinha que ora doura
no crepúsculo retraístes.

Cientes todos que dos corpos
rigorosamente não se tocam,
& os jovens, os que
desejam burlar as leis da física
na fricção incessante e sentida
na resistência contrária ao fluxo.

Ó meus amados ossos,
que nem são meus exceto
pelos sete anos que os trago,
vive o dia como rangem!
sente-se os frios & calor amenos,
células de um só dia,
que te as une a mim?

Curumim, quem te deu a face linda?

O vermelho é minha febre,
das únicas coisas que sabe-me,
os estados de alma únicos,
minhas túnicas.

Minhas malhas memoriosas.

Para a saúde dos lábios
o beijo artístico elástico.
Tabuleiro de runas desmanchado,
no sem ruínas do anfiteatro,
o porvir é questão de tempo.

Molda o epitélio tecido plástico
que é teu imaginar o sonho da matéria...

O devir afeito é ao sonhar,
& sem o dormir do mesmo modo,
trago do oceano magnético
o molde da substância que nem o é,
tanto o seja uma entidade de todas qualidades:
tocável e não, visível e não, crível e não,
amável e viva.

O pouco atrabilário que
não me houver de ver
é via para o prazer do oposto,
a lira e o arco quando lhe tanjo
o ângulo da corda.

Dor e morte e vida e deleite
de um extremo a outro do arco.
Dê-me as mãos para beijar-lhas,
ao clarão da lareira
tu quando dai-me lírios...

A vantagem do corpo
é não ter fim o renovar-se.

Que na tua vida tudo tenhas vinte.
Vinte anos, poemas de cor,
técnicas e saberes,
vinhas e cores,
misturas e toques.

Flexões & abdomêm,
o dólmem de cento e vinte flexões.

A respiração e o influxo,
as pernas a vinte quilômetros por ora,
& pelo menos o dobro de rota diária.


segunda-feira, 30 de novembro de 2009

Hoje

Dizes-me
o que tu comes
e eu te direi quem és.

Como vivo ciente
do fim trato de ter
o máximo com os valem
cada dia.

Que importa ser poliglota
(em conseguir citações),
a língua é uma vasta
estância de citações,
se quem não consegue
ser claro em português
é um néscio?

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Fluxismo

Atenta para o âmbito do rigorosamente outro.
Vê como essa pobre palavra não a encerra.
Entre nome e coisa há incongruência e disjunção.
As coisas são indômitas e as palavras tentam colonizá-las.

sábado, 26 de setembro de 2009

Aforismos

I. Opiniões emanadas são apenas esforços insípidos de almas pobres com vistas à auto-afirmação.

II. Opiniões dadas sem a devida requisição corroboram a idéia de que o ego de alguns tenta expandir-se, em vão, para além de suas pobres cadeias corporais.

III. As mulheres que, sobre todas as ações significativas e os sucessos pequenos grandes ou justos de uma vida em força dirigida, insistem em afirmarem-se ‘senhoras’ de sua sexualidade esclarecida ou liberta, ou como dizem as mais temerárias, bem resolvidas (por onde se demonstra, inversamente, a cotidianidade e a repetição; projéteis - não realizadas), carecem de um consorte que as tirem de seu ensimesmado juízo.

IV. Aforismos são armas gastas em um combate solitário que, apesar dos maiores que o utilizaram, não são tão gerais ou têm a abrangência que sonham. Atingem tão somente as partes idiossincráticas ressaltadas da psique do próprio anunciador.

V. Não há comunicação direta entre almas, a não ser entre os olhos, e escrever é apenas um desejo de glória, postergada, porque muito pouco disto é acompanhado de grandes feitos, a única substância que, por acaso os salva do mesmo passo em que, de outro modo, ia o esquecimento.

VI. Solidão e sonho são duas palavras que têm apenas sentido subjetivo. Impregnam tão fundo e tão amplo forem o alcance da resolução de quem sonha só.

VII. Não há alma que nos esforços vãos e febris de datilógrafo não tenha deixado parte de si para trás em versos performativos e premeditados, nunca de todo realizáveis ou compreensíveis; e a frieza do espelho e o eco do que mais mortífero há para a imaginação, o engano da duplicidade.

VIII. O que realmente importa no universo, para além de nossa compreensão finita, é a configuração energética em sua complexão nem arbitrária nem idiossincrática.

IX. A verdade é tão simples quão ubíqua e redundante se repete por aí. Difícil mesmo é ter a força para corroborar o provérbio.

X. Todo provérbio tem seu brilho inicial ofuscado pela opacidade das almas que o repetem sem o compreender, acaba por torna-se mesmo, ao fim de sua carreira, sinal de pobreza de espírito e lugar-comum, porém morto.

XI. Nossa época, assim como a cultura da informação, aprecia o aforismo, eleita a preguiça em virtude, no imediatismo da obviedade e pela reflexão infinitesimal que sucita.

XII. Sempre desconfiei que quem fala muito sobre sexo, que quem sonha muito com sexo, não faz sexo.

XIII. Sexo, assim como a vida, é uma questão prática. Pensar em sexo é trocar os pés pelas mãos. O corpo precisa de treino, e a imaginação que o secunda é puro instinto, pois o corpo não pensa, mas antes de tudo, re-age.

XIV. Tristes os sem liberdade... Os que querem comprá-la, prodigamente, ao preço e através de suas descrenças seculares.