segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

Imagem

Não é com negro túmulo que me encontro detrás as pálpebras.

As reticentes imagens de quem não sei quem eram, vieram a lume inscrito num númem, como uma nuvem cinza e branca que tivesse perna e braço.

Esqueci a cor da noite que quedou em falso.

Esqueci também o tom da face, o rubro das fauces, o som que trinava na boca aos estalidos da língua nos lábios.

Não sei que horas seriam.

A voz sonâmbula ainda fremia na solidão dos lençóis brancos observados.

A distância da parede esquerda não era comutável pela janela à frente.

Sentia a vontade de fugir, sabia que ia acordar.

As vagas para lá estavam tão próximas.


Como evadia de mim o silêncio da espera.

O meu silêncio frente à orquestra pneumática que eras.

Que os corações soassem em uníssono, eis o que não era permitido.

Apaixonar-se, coisa de batidas langorosas, antes ter partido o vaso expondo-o a bravia pressão.

Como dá trabalho esse oceano de idiossincrasias.

Todas as tormentas e as vezes que não aceitas a se por, a se dispor a se despir.

Quantos anos a aprofundar os sulcos da antiga colina, quantas noites nesse trabalho de agrimensor do fluido tétrico, quanta terra e quanta fazenda, será feita da mesma substância que atesta a lenda?

Encontrarão ao fim, cada um, como de si a prenda?

Mas, se fácil fosse a grande obra careceria de mérito.

Tornar fácil algo que não é sensível seria se pintá-lo como fácil, embuste não o fosse.

Pesado no coração de cada um o fardo daquilo que inda não realizaram.

Se realizá-la, quem me dirá se em teu seio não se tornará o fruto fátuo?

Quão  formidável e macio esse vaso!

Um comentário:

  1. O não realizar é um peso angustiante... e realizar culmina também por sê-lo... Se algo é realizável, sonhos misturam-se com não-sonhos... e como criar uma esfera unicamente onírica? Meu caro, só em sono... creio.

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