segunda-feira, 23 de fevereiro de 2009

A uma Ânfora de Vinho

A Horácio

I

Atina bem ao que te direi.
Eis a querela: vinho e odres,
Como havia de ser.

Sobre a boa mistura decidi.
Vinho velho em odres novos,
Ou odres velhos para vinho novo?

Odres novos para também os vinhos,
Ou vinho velho em velho odre?
Eis a disputa pela coroa do verso.

A pluma pesa pouco na balança.
O coração é um vazio átrio.
Sopro e som e você o expandem.

O barro, o carvalho ou o vaso.
A água, a uva e o fermento.
Toma tudo, mede e os pesa.

II


A resistência e o mover-se.
Os choques entre átomos e
O que a tudo isso contém.

O experimento dura década
E não menos. Experimenta!
Não sabes onde leva, porém.

O que tomarás por medida?
Qual metro é fiel? Não sois,
Vós mesmos, o parâmetro?

Barril, funil ou vaso?
Pergunta a ti mesmo,
se a ânfora é integra.

Se a noite do tempo é negra &
apenas aos seus se revela,
sobre o futuro incerto anela.

Pois, tornarás tu vivo a fitar,
na aurora, na sobra do enleio
& na sombra do reposteiro...

Ao pó inquiris em cheio:

Quando mudares-te na morada
e a terra de carmim manchar,
ao verter no ar o nobre vinho,

saberás de cor a volta do caminho,
que terá por meta a divina adega?
Com o que hás de conter o fluido?

III

Reúne, pois, consigo o que há de etéreo,
para que se não dissipe ao sabor da vaga,
em fumo o mais leve a tua 
sedenta alma...

Separa no fundo de rio o limo da água barrenta.


Um comentário:

  1. Me atrevo a dizer, pois sou uma intrometida emprestável...rs
    Eu incorporo o barril, o funil e o vaso!

    Li também de baixo para cima estes versos e te dou um desfecho:

    "Sobre a boa mistura decidi.
    Vinho velho em odres novos"

    Pois é, inverti e alcançei afirmação. Decido!
    Vinho velho em odres novos!

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