segunda-feira, 15 de março de 2010

Outro

Outra-se, e o verbo nada a mais
balbuciaria que o contínuo fluxo,
e se isso omite,
não haveria arte.

Arte é através estrelas
singrar mares além dos então contados.
É constelar novas dores
que não precisam sarar.

Outrar-se não quer dizer
tornar-se outro apenas,
pois isso é físico,
e como tal,
involuntário.

A outra coisa é criação,
viver fora de mim
o que de mim pude alhear...
ao invés de seguir alienado
nessa cômoda ilha.

Sair de si, eis a condição.
Ver ao outro não como um alheio bem.
Tudo o que é, simplesmente é,
e está para lá do bem e do mal,
como dizia meu discípulo.

Só o olhar humano é corrupto
e chega a esse ponto
que é dizer de algo que é
"bom" ou "mau".

Dos desta espécie te afasta.

Amealha o fio
com que se fia
a história divina na memória humana,
essa gloriosa filha da Inspiração.

É preciso saber
e não se repetir.

Ter noção do mesmo,
o que idiossincrático
perdura como espelho de si
e que não cola
com as nossas afirmações
superficiais e vãs.

Tome pelo contrário aquilo
que o ser humano afirma e o terá ao natural.
Por trás da fala do homem
demasiado expansivo
há sempre o mentiroso.

Quem fala?

Somente ao unificar-se os inimigos contrários,
estas palavras inconsonantes,
poder-se-ia variar as unidades...
semânticas casas sonoras,
porque fisicamente
o tudo que é o todo é,
em qualquer coisa,
igual
sendo de Si o cerne.

Então tudo é igual e nada vale a pena?
Eis o que pergunta
aquele que nem é humano
nem um duende.

Não.
Seria niilista, esse morcego imbecil...
se o afirmasse?
Contradição nos termos!
Um niilista nada afirma, não sabe criar.

Um para mim vale por mil se é o melhor.

Se é intempestivo, acrescentaria.

Se é capaz dos valores eternos...
Onde há valores morais eternos?
"Imbecis!" "Todos grandes..."
- castigava o Heleno.

Como tomam o instinto de preservação,
e a morte como verdade física,
negam os mortais o eterno
como se isso fosse algo moral,
mera sombra como tantas
saídas de seu ventre histórico
e "material".

Falo ao criador e não ao réptil
que é governado a golpe.

Só a Vida sabe a si
e ao Belo,
e não é devido a ti,
homem sábio ou mulher bela,
ou mulher sábia e belo homem,
que há Vida e Beleza neste orbe.

Entre tantas coisas
são exponenciais
as conjunção,
as disjunção...
intervalos
e desvios
pelos quais a vida une
e o abalo rítmico,
qual o sísmico, separa...

Até que venha a nova alba...
e o Novo Dia.

F.'.

Um comentário:

  1. Belas poesias,realmente objetivo!arte mistica!parabens pela pagina e pelo dom!

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