sábado, 26 de agosto de 2017

Pindorama


Pois todo animal é dirigido a pastar por um golpe (B11), 
como diz Heráclito - πᾶν γὰρ ἑρπετὸν πληγῇ νέμεται


Assim a citação se realiza plenamente em um contexto estranho ao de origem deste aforismo. Para nós é o mesmo que celebrar a compreensão deste asqueroso antro que se tornou o receptáculo dos falsos representantes dos falsos interesses, eleitos pelo voto. Olha que coisa mais suja! A multidão é aviltada na alma e no bolso e segue alienada pela propaganda e pelo excesso de informação, pelo governo e golpe que lhe dera aos meios de subsistência. Enquanto isso uma parcela mínima da população reina encastelada em suas dívidas, sempre perdoadas, pouco ou nem sequer tributadas, o por fora, a especulação, o jeitinho, toda a série de litígios para sustentar aqueles que não possuem qualquer outra riqueza que o dinheiro. Querem substituir os funcionários públicos, precarizando ainda mais sua carreira por operadores de mercado, e tornar o cidadão circunscrito ao consumidor... de serviços e supérfluos. 

Somente nesse formato é possível a alguém como Paulo Henrique Amorim dizer tantas coisas como em uma síntese. Estes pensamentos coincidiram com os meus nestes últimos meses, culminado em apoteose catastrófica por ocasião do ainda agora repente de privatize-se tudo. O melhor neste diálogo do comunicador com o sociólogo são as intertextualidades com as recentes obras publicadas pelo Jessé Souza. Veja-se a Elite do Atraso e a reportágem

http://www.diariodocentrodomundo.com.br/a-elite-tem-uma-relacao-de-convencimento-com-a-classe-media-para-saquear-o-pais-diz-o-sociologo-jesse-de-souza/. 

De repente se disse tudo o que eu pensava a respeito do sociólogo de desonrosa memória e o pensamento doméstico da classe média brasileira. Acho que foi a maior vergonha pela qual tive de passar quando, simplesmente ainda se podia fazer uma graduação - porque universidade pública já dizia uma porcentagem incrivelmente alta entre as pessoas que eu conheço, "coisa pública no Brasil não presta", e tive de ler aqueles livros sobre teoria do desenvolvimento da América Latina, e foi me crescendo uma certeza muito desconcertante de tão simples sobre a política entrega-a-lista brasileira. Avaliação geral que faz Miriam Leitão sobre os anúncios nefastos: "estado é um peso para a empresa". Já decretaram a falência mútua dos órgãos da republiqueta brasileira, para poder eviscerar-lhe enquanto seu sangue e tecido ainda tenros, podem ser coletados e trasladados. Ou podíamos decretar o fim do estado brasileiro, e fundar-lhe outro, com outro nome, pois Brasil soa e sabe demasiado a extrativismo. Não há democracia sem cidadania, nem cidadania sem prática e participação efetiva na vida das instituições civis. O ato de votar, tal como fazemos segundo o modelo representacional, é coisa mais ociosa que poderíamos fazer, sendo algo acessório em relação a instância de verdadeira decisão política: a Assembleia. O que a história mostra é que o poder não pode ser delegado. Oras, já não é cabível falar em nome de qualquer um ou por outrem, pois isto é leviano. Se está presente que fale como cidadão, em nome próprio; se está ausente, por que é que está ausente? Anda cultuando o mercado? Pois se pudesse descartava o mercador, a mercadoria e o mercado como fantasmagorias que encenam um perigoso jogo na mente do vulgo. O estudante de metafísica olha para essas coisas e se surpreende com as coisas que ouve: "o mercado hoje acordou de mau-humor", "a confiança do mercado retornou...", e pensa consigo: até onde eu sei "o mercado" não pode ser um sujeito lógico, muito mesmos algo existente, portanto, enquanto seres humanos não é para nós nem substância, nem qualquer das essências conhecidas. No máximo poderia ser um nome vago para a classe de pessoas que totalmente alheio ao poder público que emana como uma soma das potencialidades de cidadãos livremente reunidos, o que equivale ao estado civil em ato. Como diante esta perspectiva teriam iguais direitos que os outros, excetuando-se os indivíduos corporativos internacionais, para que isto lhes aproveita? É necessário então que assassinem o estado, para que como indivíduos dotados de poder econômico, possam gerir empresarialmente a vida dos outros. Recorde-se o resultado desta visão na psicologia das massas. Mas se o estado não é senão uma abstração para a soma dos cidadãos reunidos, afinal a quem é que assassinarão?


E eu um estudante de metafísica, preso na malha histórica que é a memória, vi-me obcecado pela ideia de política, e só pude ser purificado de tão infame sanha que se arrosta a fazer política para as próprias mãos, ou de seus familiares e conhecidos íntimos do dinheiro especulativo e que se arroga a função, posto que não é um título que te habilite subtrair das rendas brutas sua alíquota de perene existência, as tais malas que forma a praxe política dês a década de 80. Sem falar nos sucessivos golpes que moldaram a mentalidade de quem transparece, precipitadamente, diga-se de passagem, as opiniões “políticas” com ares de suma síntese e importância, pois já se sabe que a “multidão é governada a golpes”, com aquela imagem russa e européia, a do açoite. O capataz, o senhor do engenho, porque o nordeste inventou o Brasil, o que os estrangeiros a esta brasílica virtude alheios não conseguiram nunca compreender. E formaram-se os monopólios familiares favorecidos pelo estado à custa do contribuinte que paga forçoso imposto sobre tudo o que de riquezas e ganhos ele gera. Nesse contexto, como diz Paulo Henrique Amorim, a quem reconheço, conjuntamente com o discurso da presidente Dilma, o préstimo de me exorcizarem com seus discursos e as referências acertadas, podendo-se dizer então proféticas por parte da chefa de estado – há quem a censura por não falar bem – logo ela que predisse tão bem, clara e serenamente, como nunca se viu falando coisas sérias o que iria ocorrer daí em diante. Ela exibe formalmente a característica de um sábio que, porque sabe, pode prever (vide Protágoras no Teeteto de Platão, 151e-184b). Enquanto ouvia aquele frisson ressoante a clareza, eivado de tons de que se reveste a verdade – a lucidez que as palavras despertam quando dizem o que acontece ou há de acontecer. Todas estas coisas ditas entrelaçavam-se a calcular causas concernentes ao contexto e a situação de pilhagem e chacina das chances de o Brasil vir a ser algo bom para a sua população e não para uma meia dúzia de desalmados que legislam sempre para si e por conta própria, pois faz tempo que no âmbito dos poderes temporais não há isenção, mas sim uma clientela. Ora escolhe-se o lobby para as empresas privadas que financiam a campanhas políticas, para a seguir receberem o investimento dez ou mil vezes mais o que investiram, em tantas isenções, perdões às dívidas dos bancos, empresas automobilística, de mídia, de industriais, de pecuaristas, de leite e pão de queijo mineiro, a bossa carioca, os grandes empresários e industriais fabris, “chefes de multidões”, e a todo capital financeiro especulativo que se possa imaginar, empresas tarja laranja, grandes sonegadores, dadas a falir após alguns anos de lucrativas empresas, calcule-se! Tudo isso com o que se possa negociar alguma lei, alguma obra que arraste consigo novo elefante branco, quaisquer vantagens que se sigam a quantos contos com que se faz a fábula e o folclore político brasileiro. Pitoresca e fantasticamente inacreditável aos não iniciados. É uma fauna feroz, como diziam os colegas da biologia, essa tal de classe política de representante de nadie. O Brasil é uma pátria folclórica sem um mito fundador. Havia que se reinventar em outra coisa, sendo narrada essa transformação por um Macunaíma, a desventurar as tramóias e os chiliques da classe média em outras coisas mais sãs e proveitosas. Levar-se-ia em conta a face da pobreza, linguagem com que se entendem o norte e o nordeste, e a cara feia e cinza do sudeste, os concretos armados e estas coisas mortas, e os verdes pastos a perder de vista a um Colosso de Rodes, e o sul que sabe a tomadores de chá. E estas coisas se enclavinhando, de tão bem cosidas pareceu-me espantosamente a mim pensando tais coisas, ainda que seguissem distintas ordens e direções elas combinavam quanto ao teor, e os vários elos se acoplavam tão significativamente como se supunha, As palavras e as sentenças coincidiam elipticamente ampliando-se a volta que o pensamento dá às coisas ouvidas, e referem-se de vários ângulos à mesma coisa, uma abstração chamada Brasil. Pobre e as veias abertas a jorrar diversas cores. Terra mítica, verdadeira Canaã. Pindorama invadida. Pindorama conquistada. Pindorama saqueada e finalmente liquidada. Marco temporal: 517 anos e o Brasil passa a si descoberto. O rei MORREU! Morte ao rei! Ele é o pai da fome e da miséria. Vão evadir as divisas em malas flutuantes para o atlântico norte, por um gasoduto pelo qual também escoará o betume pelo qual tanto se mata e morre. Um a um, os países mais frágeis emocionalmente do continente sulamericano sucumbem ante a propaganda do holograma neon com que se escreve american way of life, totalmente sem apelo para qualquer ouvido e sujeito a desdém enfadado para lá dos limites territoriais da Brasilia Terrae. E, no entanto, este é o élan com que se cosem os sonhos da classe média brasileira. A cada herdeiro do que não havia, ou então me mostrem o Adâmico testamento, seria então concedido um feudo e seus vassalos, o Dono da Casa Grande e o capataz, e com isso tudo o que se segue, a sujeição de uma porção populacional de almas. É preciso dizer que um romano ao pensar o seu político, o via como a cabeça do corpo civil, e não há maior ultraje que governado pela vil e infame fome de poder daqueles que por natureza são destituídos de qualquer característico político, que é pensar o público, não como quem o quer a custas de outrem e sempre lhes alienando, tomá-lo de assalto. Isso eu tenho visto desde que nasci. Não há nada mais óbvio dentre as coisas que possa hoje reconhecer como sabido. Gente também é uma Casa, digna. Já se sabe que os chineses já compram grandes áreas em territórios internacionais. Alguém sopra, advertido já de um ano, que finalmente se consolidará a privataria, e o mercado se põe nervoso. “Compre-se” tudo. Hoje é dia. Esperem a poeira baixar, raposas velhas. Amanhã as instituições são os últimos títulos do tesouro à venda. As terras, os minérios raros, as florestas, os aqüíferos, a petrolífera, a fauna, a flora, os povos, enfim, os últimos itens liquidados para a farra do boi em sacrifício dos trabalhadores e as gentes pobres que o mais das vezes coincidem. Calculem a massa que o mercado, este monarca, despreza. Boibumbá Bumbameuboi!

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