Uma segunda-feira em que como de costume,
estava a exercer o meu centímetro cúbico de chance -
nascer para o dia com o sol e como um vetor eficaz
prestar atenção ao encontro.
Temos um encontro com a beleza a cada dia.
Nesse dia a chuva caia tempestuosamente.
Chuva tropical para o fundo de mata atlântica.
Um casal mãos-dadas cruzavam-na como quem
não molhasse ou não importasse o onde e como
estivesse, desde que ao lado de sua face consorte.
'Com ela mãos-dadas eu estaria a chuva duplamente feliz' - pensei .
Ai ela irrompe o horizonte.
Ela, a chuva e a floresta como pano de fundo.
Atravessara a chuva como os colegas, sozinha.
Enquanto se centrava arranjava as sandálias
vindo na minha direção.
Não sei se em pé, sentado ou com as mãos a face,
percebo que ela não me vira.
Torna em direção a sala e sei já de um horário,
uma coordenada convergente.
Para retribuir sai a buscar uma copiadora.
Isso eu só soube depois de ela constatá-la fechada
indo em busca de uma outra.
Convenci-me de todas as maneiras o quanto pude
em não segui-la. Coisa que fiz inexoravelmente.
Também tinha de tirar uma fotocópia e por na pasta...
Algo me diz para esperá-la do lado de fora.
Ela sai e me vê.
Sorri e pergunta o que eu fazia ou onde ia.
- A Xerox, 'vê-la' - pensei.
Ajo, não falo bem, não consigo articular
tantas coisas ao mesmo tempo - o sentir,
o pensar, o dizer - agir e portar, passando...
Pergunto.
- Achas que é suicídio ou algo ilícito querer saber mais de ti?
Passavam três filmes em minha mente.
Lembro que ela aparentava não ser algo ilícito ou suicídio.
- Sou o mesmo que qualquer um dos que vieram antes?
- essa pergunta pedia e valia a resposta tal e qual.
- Não, respeitando as suas diferenças... - disse ela.
- Ah, a resposta não alivia nem um pouco.
Ela me definira como: - um amigo.
Houve uma pequena pausa.
Eu tive a idéia estúpida de que o fato de ser seu amigo
poderia monopolizá-la e ao seu tempo... com uma estória!
- Posso te contar uma estória - perguntei,
só porque para mim havia sentido.
Ela olhou no relógio.
'Nossa, essa... cruel' - pensei.
É preciso muita presença de espírito num momento assim.
- Eu te conto no caminho.
Deveria ter perguntado se ela queria ouvir ou não.
"Presença... - disse, como quem não controla o fluxo verbal,
- estávamos reunidos, e quis ler algo para meu mestre..."
- Mestre - perguntou ela.
- Sim, meu mestre - li um poema de um certo poeta inglês que dizia isso:
A primrose by the river's brim
A yellow primrose was to him,
And it was nothing more.
A yellow primrose was to him,
And it was nothing more.
- Omitindo a tradução exata de primrose,
pois não sei o nome de flores em inglês...
- Ele sabe - ela aponta, para alguém que não se pode
abordar com uma pergunta acerca da tradução do nome de flores.
- A yellow primrose - perguntei-lhe.
Seguimos.
"Uma flor amarela ao pé do rio, era para ele,
apenas uma flor amarela ao pé do rio e nada mais".
- Meu mestre escutou e disse:
"Esse teu poeta inglês via bem.
Uma flor amarela ao pé do rio é
apenas uma flora amarela ao pé do rio,
e nada mais".
Parou como quem refletisse, e em seguida,
acrescentou:
"Mas há uma diferença.
Depende se ela a considera
uma flor amarela,
um objeto genérico,
parte de uma experiência vulgar,
ou conhecida.
Ou,
se ele considera aquela flor,
escolhida como uma entre muitas" -
aqui eu jambizava.
Ela disse: - a sua flor.
- Isso mesmo - disse. E despedi-me.
A segunda parte da estória é a seguinte:
"Ora isso é que não está bem.
Toda a coisa que vemos,
devemos vê-la sempre pela primeira vez,
porque realmente é a primeira vez que a vemos.
E então cada flor amarela é uma nova flor amarela,
ainda que seja o que se chama a mesma de ontem.
A gente não é já o mesmo nem a flor a mesma.
O próprio amarelo não pode ser já o mesmo.
É pena a gente não ter exactamente os olhos para saber isso,
porque então éramos todos felizes".
Que se ela quiser escutar...
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